São Paulo, julho de 89. Eu tinha 28 anos. Era diretor de rede da rádio
Metropolitana. Trabalhava na Avenida Paulista, bem ali em frente onde
hoje fica o metro consolação (que ainda nao existia).
Foi numa segunda-feira que aconteceu, depois do almoço. Lembro até do
que comi naquele dia, saibam. A rádio ficava no 17º andar. Saí do
elevador e dei de cara com o corredor cheio de gente e cheiro forte de éter. As
moças da faxina, do cafezinho, os dilberts do comercial, operadores de
áudio, estagiários, toda a rádio ali apinhada no corredor.
Eu estranhando, ouvindo as pessoas comentando “parece morto, né?” ou “nem
parece ele. Tem certeza?” e coisas do tipo.
Me apressei pra chegar no fim do corredor. Comecei a
sentir o cheiro mais forte. Cheiro de ambulatório, manja?
Saindo do corredor à esquerda ficava o estúdio de gravação. A muvuca – e o cheiro – ficava mais forte ali. Na porta, pedi licença e olhei pelo vidro. Dentro estavam 2 produtores da Metropolitana, um jornalista da casa, 3 locutores, dirtetor artístico, operador, divulgador da gravadora e o personagem principal deste post ao centro, falando.
Resumo: a rádio parada por causa dele. Gente demais por ali.
Fofocando, falando bem e maldizendo, cheiro forte de éter no ar,
momento suspenso no tempo e na história, saca?
De fora não se podia ouvir o que ele falava. Mas dava pra ver que ele
não falava nada. Balbuciava aqui e ali, desinteressado. Ele não estava
lá. Apesar de tanta gente junto ele estava noutro canto, noutra
sintonia, noutra estação.
Quando Junior (grande junior!) o divulgador disse que chega e tirou
ele do estúdio, passou por mim. No ato e por instinto eu disse: Vamos
tomar um café na minha sala? Quem respondeu foi a personagem pop: “to
a fim, sim.”
Junior disse que tinha que ser rápido pq eles iriam fazer mais 6
rádios naquela tarde.
E fomos pra sala.
Quem já viu uma pessoa recem-operada andando pelo quarto de hospital?
Eram assim os passos dele: arrastados, camera lenta, difíceis. O
cabelo longo parecia nao ter sido lavado há semanas. A pele estava
soltando...escamas. E o cheiro de éter junto.
Entrou na minha sala e sentou na cadeira em frente à minha. Pensei
“poxa, e agora? O que se conversa com um cara desses?”
Lembrei de um disco antigo dele, era de meu tio. Na capa tinha uma
guitarra gretch vermelha. Perguntei se aquela guitarra ainda existia.
O café nem tinha chegado. Mas a pergunta tinha a melhor cafeína do
mundo. Ele acordou, contou que a guitarra nao estava mais com ele.
Falou de Gibson, de violoes, ficou animado. Voltou. Na sequencia
perguntei sobre o encontro dele com Lennon e ele, safado, me deixou na
duvida. Me sacaneou baianamente. Tomou o café alegre e saiu de lá
andando um pouco mais celerado do que qdo chegou.
Junior ria. E a rádio toda quis saber o que tinha acontecido na sala.
Eu, que tinha aprendido sacanear baianamente há instantes, ri e deixei
todo mundo duvidando das historias que acabei de contar aqui.
Algumas vezes esbarrei com colegas radialistas que tinham se encontrado com Raul Seixas naquela tarde noutra emissora: cada um com uma história que nunca se apaga.
Blogado por Enio Martins @ agosto 21, 2009 06:08 PMPutz. O cara. Tocava direto numa vitrola na minha rua. Nunca soube qual o vizinho que era da Sociedade Alternativa - até hoje! Mas todo o sábado, dá-lhe Raul na vitrola, no último dos volumes possíveis. Um dia parou e só ficou o silêncio.
E teve uma viagem à praia marcada por "Gîta". No ano em que meu pai me emprestou uma versão muito resumida e fácil de entender do Mahabharata, onde aparece o canto que virou a música. Eu esqueço de muita coisa, mas disso nunca.
(e preciso dizer que cê é um sortudo? Pomba! Que história legal, cara!)
Comentado por Anna Chains @ agosto 25, 2009 12:10 PMFilha de pai que dá versão resumida do mahabharata. A gente vai entendendo um pouco mais das pessoas...
=D
Também me acho sortudo por ter nuns 5% da vida um quê de forrest gump. Confesso que gosto de poder contar essa do raul por aí.
bj!!!
Comentado por enio @ agosto 25, 2009 12:22 PMAi, queria tanto ter vivido nessa época. bjobjo
Comentado por Haline @ agosto 25, 2009 12:37 PMO presente é muito pior e melhor do que o que já passou, Haline. Creia!
O caetano tem uma música (veeeelha) que diz "porque forjar desprezo pelos vivos e formentar desejos reativos?"
Por aí!
bj!
Comentado por enio @ agosto 25, 2009 01:45 PM