agosto 21, 2009

Metamorfoses

São Paulo, julho de 89. Eu tinha 28 anos. Era diretor de rede da rádio
Metropolitana. Trabalhava na Avenida Paulista, bem ali em frente onde
hoje fica o metro consolação (que ainda nao existia).

Foi numa segunda-feira que aconteceu, depois do almoço. Lembro até do
que comi naquele dia, saibam. A rádio ficava no 17º andar. Saí do
elevador e dei de cara com o corredor cheio de gente e cheiro forte de éter. As
moças da faxina, do cafezinho, os dilberts do comercial, operadores de
áudio, estagiários, toda a rádio ali apinhada no corredor.

Eu estranhando, ouvindo as pessoas comentando “parece morto, né?” ou “nem
parece ele. Tem certeza?”
e coisas do tipo.

Me apressei pra chegar no fim do corredor. Comecei a
sentir o cheiro mais forte. Cheiro de ambulatório, manja?

Saindo do corredor à esquerda ficava o estúdio de gravação. A muvuca – e o cheiro – ficava mais forte ali. Na porta, pedi licença e olhei pelo vidro. Dentro estavam 2 produtores da Metropolitana, um jornalista da casa, 3 locutores, dirtetor artístico, operador, divulgador da gravadora e o personagem principal deste post ao centro, falando.

Resumo: a rádio parada por causa dele. Gente demais por ali.
Fofocando, falando bem e maldizendo, cheiro forte de éter no ar,
momento suspenso no tempo e na história, saca?

De fora não se podia ouvir o que ele falava. Mas dava pra ver que ele
não falava nada. Balbuciava aqui e ali, desinteressado. Ele não estava
lá. Apesar de tanta gente junto ele estava noutro canto, noutra
sintonia, noutra estação.

Quando Junior (grande junior!) o divulgador disse que chega e tirou
ele do estúdio, passou por mim. No ato e por instinto eu disse: Vamos
tomar um café na minha sala? Quem respondeu foi a personagem pop: “to
a fim, sim.”

Junior disse que tinha que ser rápido pq eles iriam fazer mais 6
rádios naquela tarde.

E fomos pra sala.

Quem já viu uma pessoa recem-operada andando pelo quarto de hospital?
Eram assim os passos dele: arrastados, camera lenta, difíceis. O
cabelo longo parecia nao ter sido lavado há semanas. A pele estava
soltando...escamas. E o cheiro de éter junto.

Entrou na minha sala e sentou na cadeira em frente à minha. Pensei
“poxa, e agora? O que se conversa com um cara desses?”

Lembrei de um disco antigo dele, era de meu tio. Na capa tinha uma
guitarra gretch vermelha. Perguntei se aquela guitarra ainda existia.

O café nem tinha chegado. Mas a pergunta tinha a melhor cafeína do
mundo. Ele acordou, contou que a guitarra nao estava mais com ele.
Falou de Gibson, de violoes, ficou animado. Voltou. Na sequencia
perguntei sobre o encontro dele com Lennon e ele, safado, me deixou na
duvida. Me sacaneou baianamente. Tomou o café alegre e saiu de lá
andando um pouco mais celerado do que qdo chegou.

Junior ria. E a rádio toda quis saber o que tinha acontecido na sala.
Eu, que tinha aprendido sacanear baianamente há instantes, ri e deixei
todo mundo duvidando das historias que acabei de contar aqui.

Algumas vezes esbarrei com colegas radialistas que tinham se encontrado com Raul Seixas naquela tarde noutra emissora: cada um com uma história que nunca se apaga.

Blogado por Enio Martins @ agosto 21, 2009 06:08 PM
Comentários

Putz. O cara. Tocava direto numa vitrola na minha rua. Nunca soube qual o vizinho que era da Sociedade Alternativa - até hoje! Mas todo o sábado, dá-lhe Raul na vitrola, no último dos volumes possíveis. Um dia parou e só ficou o silêncio.

E teve uma viagem à praia marcada por "Gîta". No ano em que meu pai me emprestou uma versão muito resumida e fácil de entender do Mahabharata, onde aparece o canto que virou a música. Eu esqueço de muita coisa, mas disso nunca.

(e preciso dizer que cê é um sortudo? Pomba! Que história legal, cara!)

Comentado por Anna Chains @ agosto 25, 2009 12:10 PM

Filha de pai que dá versão resumida do mahabharata. A gente vai entendendo um pouco mais das pessoas...

=D

Também me acho sortudo por ter nuns 5% da vida um quê de forrest gump. Confesso que gosto de poder contar essa do raul por aí.

bj!!!

Comentado por enio @ agosto 25, 2009 12:22 PM

Ai, queria tanto ter vivido nessa época. bjobjo

Comentado por Haline @ agosto 25, 2009 12:37 PM

O presente é muito pior e melhor do que o que já passou, Haline. Creia!

O caetano tem uma música (veeeelha) que diz "porque forjar desprezo pelos vivos e formentar desejos reativos?"

Por aí!

bj!

Comentado por enio @ agosto 25, 2009 01:45 PM
Participe!









Lembrar de mim?