Não julgue um canal pela capa
Há muito tempo vejo pessoas se queixarem da programação da MTV. Dizem que de “Music” ela não tem mais nada. Concordo. O canal virou um grande reality show de VJ´s. Deturparam um pouco aquela máxima da “câmera na mão e uma idéia na cabeça” e transformaram em algo como “uma câmera na mão, um VJ na frente e foda-se a idéia”. Mas não vamos culpar a MTV, os caras estão certos. E “Sinhá Boça” me fez voltar a ter esperanças na teledramaturgia brasileira, então dou um desconto.
Videoclipe era muito maneiro em um passado remoto, quando não era possível baixar a discografia completa da sua banda preferida em uma noite ou assistir algumas horas depois a gravação do último show ao vivo que os caras fizeram. Lembro de um amigo que já ficou tardes a fio sem sair para ficar assistindo o “Gás Total” da MTV, esperando o clipe de “Welcome to the jungle”. Era o único que faltava para ele completar a sua fita VHS com os clipes do Guns’n’Roses. Tá, vocês podem estar achando ele patético. Mas entre o Gastão (apresentador do Gás Total), a fita VHS, os Guns’n’Roses e ele, ele foi o único que sobrou para contar a história. Devemos creditá-lo por essa proeza Darwiniana, pelo menos.
Ou seja, a decisão da MTV não passar mais clipes encontra alguma justificativa. Os caras precisavam optar, era o M ou TV. Para não perderem o emprego mandaram o M pra merda e ficaram com a TV. “Falsidade ideológica”, urram os puristas. Beleza, mas se formos caçar a falsidade ideológica em canais de TV, a MTV não fica sozinha.
Saia da frente do computador e sintonize a ESPN, por exemplo. Se estiver passando algum esporte, prometo não comer carne de avestruz nesse ano. 95% da programação da ESPN é constituída de “esportes” como sinuca, poker, dominó, golf e homens gordos carregando toras. Não é sacanagem, a ESPN transmite campeonatos de dominó! Tudo bem, golf pode ser considerado esporte, mas só se os jogadores não andarem no carrinho elétrico.
Também tem um canal chamado FX. Ele diz ser “o canal que o homem vê”, especulando que sua programação é 100% voltada para o público masculino. Balela. Se fosse assim, o canal ia passar 24 horas de pornografia. E nada de filmes pornôs completos, cheios daquelas cenas supérfulas que só servem para dar utilidade pra tecla “FF” do vídeo. Seria só meteção, pura. Mas, ao contrário disso, eles enchem a programação com coisas babacas como séries e filmes. Esse mês estão passando “O amor é cego”, uma comédia sentimental onde um cara aprende a enxergar a beleza interior das mulheres. Tomanucú! Mais mulherzinha que isso só os programas no estilo “transformando calhambeques em carros tunados”, outra especialidade do FX. Essa porra de tunning é muito gay. O cara é tão metrosexual, mas tão metrossexual, que não se contenta em passar gloss nos lábios e gel no cabelo. O carro dele também precisa ar-ra-zar...
Mas o grande prêmio da falsidade ideológica dos canais vai para o “People + Arts”. Cara, eu me lembro desse “People + Arts” nas antigas. Era cheio de programas maneiros e documentários que faziam pensar. Numa época passava até o “The Office” britânico. Foda. Mas agora... A coisa mais artística que rola lá é aquela família de obesos que fabrica motos tunadas e discute (provavelmente são gays, por causa do tunning). A parada só transmite reality shows desse naipe. Para vocês terem uma idéia, os caras passam “O Aprendiz”! O americano e o brasileiro! O canal tinha que se chamar “People - Arts”. Mostram só pessoas e ponto. Sem roteiro, sem história, sem criação... Enfim, sem arte. Pessoas sem cérebro e suas vidas reais. Só. E chamar assim já é generoso. Desde quando participantes de reality shows podem ser considerados pessoas?
Blogado por Enio Martins @ janeiro 18, 2007 04:18 PMlegal
Comentado por jhoe feitosa @ setembro 6, 2007 09:58 AM