
Eis que o domingo chega. Frio, úmido e cinza. O Tim Festival começaria mais cedo, era preciso sair rápido. Olho pela janela, já eram 18 hs. O horário de verão deveria me mostrar um dia claro lá fora, mas o começo da noite é cor de chumbo. Sem preguiça ganho a rua pensando que Dave Holand se apresenta 20 hs. Precisava chegar mais cedo porque a agenda do Tim Festival no domingo é ingrata: Brian Wilson está marcado para 20:30 Hs. Portanto eu teria, no máximo, apenas meia hora para ver o baixista favorito de Miles Davis, o multi premiado Holland. Não é muita coisa. Mas o que é possível fazer?
¬øs 19:30 eu estava em frente ao palco observando a movimentação dos roadies montando equipamento da Dave Holland Big Band. Aos poucos o auditório do Tim Club vai enchendo, os colegas de imprensa vão aparecendo. Olho no relógio, 20 hs. Olho de novo, 20:10 hs. Nada de Dave Holland. Já começo a achar que terei problemas por conta do show de Brian Wilson que começaria em 20 minutos. Me avisam que o show do Beach Boy atrasaria também, começaria 21 hs. Isso me daria chance de acompanhar Holland. Mas cadê ele? 20:25 e...nada. De repente me avisam: Brian Wilson começaria pontualmente o show. Eu tinha 5 minutos para chegar ao Tim Stage que não ficava exatamente ali do lado. Voei. Eu e um batalhão de repórteres abandonamos Dave Holland. Não briguem comigo, mas...

Esbaforidos entramos no Tim Stage e nos colocamos em frente ao palco. Olho no relógio e vejo que são 20:45. Pontual como? Mais um atraso? Acabo de pensar isso e a vinheta do Tim Festival ecoa. Em seguida o locutor anuncia: a lenda - sim, senhores, é sim - entraria no palco.

E entra. Nem eu, nem ninguém no Tim Stage conseguiu disfarçar a emoção. Acostumado a frequentar shows, entrevistas com estrelas pop, costumo manter distância segura de idolatrias e babações de ovo. Mas confesso que dessa vez não segurei. Ver Brian Wilson entrar no palco com aquele olhar de "melhor amigo do homem", sentar-se ao piano, cumprimentar a platéia e atacar de cara com "Sloop John B" foi demais. Me arrepiei mesmo. Me emocionei. E sei que não estava sozinho sentindo isso. Atrás de mim, ali na primeira fileira, estava um camarada chamado Herbert Vianna. Olhando fixamente para o palco com um sorriso iluminado, extasiado. Olhei para as mesas próximas e vi que havia um exército de Herbert Viannas: todo mundo feliz. Eu incluso.
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Brian Wilson não negou fogo. Tocou tudo que a gente quis: "California Girls", "Surfer Girl", "Wouldn't it be nice" (maravilha!), "Wendy", "Good Vibration" e, claro, "God Only Knows", anunciada por ele como a canção predileta de McCartney. Voltou animado para um bis com 3 músicas. Saímos, eu, Herbert e todo mundo, com a alma lavada e enxaguada na praia de Mr Brian Wilson.
Não deu muito tempo para que eu me recuperasse e partisse para uma outra experiência peculiar. De outra natureza pop, mas inesquecível: um show do Libertines. Aclamados pela imprensa inglesa como uma das poucas bandas de quilate e qualidade, com passagens pela polícia, envolvimento com drogas pesadas e anuncios de um precoce final de carreira, o Libertines tinha nessa receita confusa uma reputação de ser, ao vivo principalmente, uma grande e verdadeira banda de rock'n'roll.

A banda entrou no palco em silêncio. Silêncio deles, pois a platéia urrava. Impressionante. Aliás o público estava a fim de barulho, estava agitado. Pouco antes da entrada do Libertines a horda brigava com o roqueiro Supla - que estava ali, entre o público - gritando frases que eu acho melhor não reproduzir aqui.
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Voltando ao Libertines, eles entram em silencio e encarando a platéia. EspecialmenteCarl Barât, que faz uma cara de louco mas sem deixar de mostrar que sabe muito bem o que está fazendo. Bom, ele abrem com "The Delaney" e fica tudo muito claro: eles realmente são uma banda de rock. Sabem tocar (é, hoje em dia esse parece ser um quesito opcional), gostam do palco e tem carisma. Mick Jones, do Clash, disse com todas as letras que esses caras sabem mesmo tocar em volume alto, aparentemente perdendo controle e pousando com segurança ao final das canções. Na veia: foi isso o que eu vi. Carl e Tony realmente se entendem enquanto tocam, a cara de mau de Hassal não disfarça o excelente baixista que é e Gary Powel bate como que pra furar a pele de seu kit (em "Road to Run" brincou de escola de samba com um apito na boca em alusão ao Brasil). Podem até ser loucos, mas que estavam muitíssimo bem ensaiados, isso estavam. "Vertigo", "Plana", "Time for Heroes" (minha favorita na noite), "Ha Ha Wall", "Good Old Days", todas cantadas aos berros pela platéia e executada irreprensível por essa banda que fez valer cada centavo gasto pelas pessoas que lotaram o Tim Lab.
Bom, como resolvi assistir até o fim Brian e Libertines, naquela hora do domingo me restava ainda uma atração de peso, os Pet Shop Boys.

Neil Tennant e Chris Lowe entraram num palco com cenário hi-tech, em tons azuis. No lado direito os teclados e o Macintosh Titanium de Lowe, ao centro um pedestal para o microfone de Neil. Mais nada além dos pads de iluminação. Talvez por conta da apresentação do Kraftwerk na sexta, estivesse esperando uma apresentaçnao sem muita emoção. Nada disso, Neil Tennant parecia mesmo gostar de estar ali. Ia de um lado ao outro do palco, brincava com a platéia, cantava rindo e fazia pose para os fotógrafos. A platéia, que pegou quatro horas entre filas e a entrada do duo no palco parecia feliz e cantava os hits. Os Pet Shop Boys colocaram no setlist "Rent" (que abriu), "West end Girls", "Domino Dancing", "Suburbia", "Being Boring", "Always on my Mind", "Left to my Own Devices", "It's a Sin".
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Logo depois da apresentação dos ingleses entrou no palco do Tim Stage o DJ Mau Mau para fazer o chill-out dessa edição do Tim Festival, que emendou madrugada a dentro.
Ano que vem tem mais? Espero que sim.
Blogado por Enio Martins @ novembro 7, 2004 02:47 PM | TrackBackO Pete (Libertines) estava no Tim Festival? Li que o Pete saiu da banda por problemas de vício com drogas (novidade :p) e não veio a o Tim Festival (foi substituido por outro guitarrista). Eu não fui, mas foi o que disseram. Se você foi e viu ele, eu não contesto :)
Comentado por João Paulo @ novembro 10, 2004 06:54 PM"Pete Doherty (voz e guitarra), Carl Barât (voz e guitarra), John Hassall (baixo) e o hiperativo Gary Powell (bateria) entraram no palco em silêncio."
Agora fiquei confuso.
Comentado por João Paulo @ novembro 10, 2004 09:56 PMAi, Ênio, só vc mesmo para ser o meu vizir - os olhos e ouvidos da rainha Catarina!...quem me dera ver esses shows!...Queria tanto ver PJ Harvey, Primal Scream, Kraftwerk e Pet Shop Boys...thanks pela cobertura!!!
Comentado por Catarina, a Grande @ novembro 11, 2004 11:58 PMAno que vem vamos juntos então, Cat.
Comentado por Enio @ novembro 12, 2004 01:13 AMUau! Fico lisonjeada - quem sabe se Catarinalândia não me demandar maiores compromissos, eu não vou, hein?
Beijão!
Comentado por "Cat" @ novembro 13, 2004 11:01 PMDigo, eu vou! heheheheh
Comentado por "Cat" @ novembro 13, 2004 11:02 PMEnio, uns caras do Globo, aqui no Rio, escreveram que bom mesmo foi o show que abriu o Libertines, o Primal Scream? Vc ouviu algo sobre isso?
Comentado por Leo Boechat @ novembro 17, 2004 05:49 PMOps! Não tinha visto sua outra resenha. Desculps.
Comentado por Leo Boechat @ novembro 18, 2004 11:41 AMBom, talvez os caras estivessem falando do Grenades. O Primal foi no dia anterior, Leo.
Comentado por Enio @ novembro 18, 2004 11:53 AM