outubro 13, 2004

Joaquim Ferreira dos Santos, a MTV e esse tal de roquenrôu

(.:. jean | says:
pega a materia do cara do globo, amigo do rr e publica no blogar... aquela que mete o malho na mtv...
Enio says:
a do joaquim?
.:. jean | el carretero! says:
sim.. acho que foi dele... vale o post.)

Eu havia lido, a Ri falou também e jampa me empurra ladeira abaixo. Como a princípio era o verbo, vamos conjugar com o Joaquim. Leiam, crianças.

E aí, beleza?

Eu vi a "Geração é isso aí, galera", semana passada na entrega dos prêmios de videoclipe da MTV, e faço minhas as palavras de Caetano. Tomem vergonha na cara, honrem Johnny Rotten, urinem no túmulo de Jim Morrison e acordem para cuspir na careta desses VJs. Elvis Presley morreu gordo. João Gordo vai morrer magérrimo. Até quando a história do rock vai repetir que um garoto na rua não tem o que fazer além de se juntar a outros, montar uma banda para anarquizar os otários e depois falecer quietinho, com os burros cheios, no caixão de peroba de todos eles?

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Vamos parar com essa gritaria de "u-hu" e "valeu, galera". Isso aqui era um estacionamento cheio de som e fúria, hoje é um oásis de tranqüilidade e margaridas do campo, diz a bela música que Caetano Veloso cantou com David Byrne. E agora? Fica todo mundo aos gritos de "é isso, aí", todos aplaudindo a premiação e o blablabá dos VJs de calças Armani rasgadinhas no joelho. Papo furado. O som está uma porcaria não é de hoje, e foi preciso um cara, que já devia estar acoplado a um Vienatone básico, botar mais uma vez os cornos acima da manada e gritar aos moleques que o rei é que está surdo. Ninguém está ouvindo nada. Deve ser culpa da touca Cavallera que o cara do Sepultura, depois de aumentar diabolicamente o som da caixa, desenhou para proteger as orebas dos consumidores e fazer o caixa. Fatura-se em todas as pontas. Custa crer. Tanto coquetel molotov no cavalo dos meganhas para se viver nessa imensa butique de imagens.


Eu queria ser jovem o suficiente para quedar quietinho na paz da minha tatuagem de cobra enroscada, curtindo o jeitão irado de ela ir descendo pelo ombro e cair de boca, a língua esticada, na aranha espalhada pelo cotovelo. Queria ficar na minha, falando um palavrão qualquer, como eu vi os moleques no programa, para fingir que continuo na contramão do discurso. Queria acertar com gel o arrepio exato do cabelo, como fez o Selton Mello. Mas eu vi, agora me lembro o que me traz aqui, eu vi a entrega dos prêmios da MTV e pasmei. Lamento que tenha se passado tanto rock and roll para tão nada. Tantas guitarras quebradas pelo Pete Townsend, a solidão tamanha da Janis Joplin, o tiro esquentado na orelha do Kurt Cobain, a piração que nenhum choque cura do Brian Wilson. Tudo desperdício e, agora se vê, apenas material para anúncio do novo Volks no intervalo VMB 2004.


Valeu o escambau, MTV. Se os Panteras Negras diziam "Queima, baby, queima", os negões do hip hop em 2004 clamam pela "fé na humildade". A rebeldia virou uma coisa velha, uma nostalgia de cara que já entrou nos enta, como esse Caetano 60, não se agüenta e solta o verbo pelos cinco mil alto-falantes. Ela não vai entrar nunca no Top 20, não faz o gênero de chegar na esquina e, como é bordão entre os menores de 20 anos, perguntar serelepe: "E aí, beleza?"

Eu vi a "Geração e aí, beleza?" no Vídeo Music Brasil, todo mundo interessado em não desagradar ao patrocinador da cervejaria, e sinceramente não acredito que o Marcelo D2 acredita que o negócio é "plantar o amor para se colher o bem". Qualé, mermão ?, faça-me o favor. Beleza coisa nenhuma. Estão de novo em cena os jovens que vão matar amanhã a idéia ultrapassada que morreu ontem. E, se é assim, parodiando o discurso do velho baiano em 1968, estamos fritos.

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Era uma geração que dizia não ao não. Derrubou as prateleiras, as estátuas, as vidraças, louças, e foi sucedida por outra, mais radical ainda, que via "no future". Eis que agora surge, inteirinha no seu vídeo, a geração que se planta diante dos clipes jeitosinhos da MTV e diz sim ao sim. Todos em busca de um patrocínio maneiro, de olho no futuro que, além de existir, pode trazer uma sorte igual ao do VJ Rafa, escolhido num concurso público. "Ser jovem e morrer" ficava a sua vovozinha, aquela revoltada gritando bordões dos punks.

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A juventude, como sempre se soube, é um verbo que se conjuga afirmativo e radical, mas sempre na forma negativa. Ouvi vaias contra uma baladinha da Sandy e Junior na festa. Achei pouco. Li sobre estudantes do Rio que foram às ruas semana passada protestar contra o elevador da faculdade que não funciona. Lamentei a dispersão de energia. Passaram-se as eleições, nenhum vereador se apresentou como articulador no legislativo das portarias jovens. Dei a questão como voto perdido e fui ao Festival do Rio ver o novo Bertolucci, "Os Sonhadores", sobre a revolução da estudantada de maio. O filme abre e fecha com trovões disparados pela guitarra de Jimi Hendrix.

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Eu vi na MTV os garotos atrás da música, essa força sonora que fez diferente e deu norte à cabeça de várias gerações no passado. Depois de dezenas de popizinhos, depois de mais uma vez perceber que os caretas por trás dos botões ainda tentam escandalizar a platéia com duas mulheres se beijando e uma saraivada de "porras" gratuitos ?> eu voltei para a bela "(Nothing but) Flowers", de David Byrne.

Caetano cantou e ninguém percebeu, primeiro por causa da porra do som e depois pelo embotamento geral dos sentidos, que a música sublinhava o vazio no furo dos piercings na pele da platéia e na língua dos apresentadores. Falava, com melancolia, como se perfilassse a platéia em frente, das transformações e do que fazer depois que elas chegam. "Não me deixa encalhado aqui/ Eu não me acostumo com esse estilo de vida". E agora?

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Os jovens da MTV, e todo ano eu dou uma geral na festa para ver como eles andam, têm os corpos sarados e as idéias gordas. Papai e mamãe deram permissão a todos os doces de sexo. Lambuzaram-se com a pimenta da contravenção comportamental nas últimas décadas. Saciados, cansados, aposentaram a dona rebeldia. Talvez só tirem o pijama se lhes for garantido que em troca vão ficar como o Marquinhos Mion, o VJ que tempos atrás apareceu do nada esculhambando a caretice da estética videoclipe e, depois de uns tempos afastado, reapareceu semana passada na festa do VMB.

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Mion não zoou com a cara de ninguém. O bronzeado e o terno branco matariam de inveja qualquer bicheiro de Las Vegas. Seus dentes, que agora brilham, odontologicamente corretos, eram a mensagem. O futuro lhe sorriu.
(Joaquim Ferreira dos Santos)

Texto publicado no O Globo, segunda, 11 de outubro (e totalmente Blog'n'Roll).

Blogado por Enio Martins @ outubro 13, 2004 06:56 PM | TrackBack
Comentários

Rafa, o babão! =^)

Comentado por Jean Boechat @ outubro 13, 2004 08:53 PM

Thumbs up

Comentado por João Paulo @ outubro 13, 2004 09:32 PM

esse joca é fodão pacas.

essa eMeTeVê...sei não.

Comentado por RR @ outubro 14, 2004 12:30 AM

Genial.

Comentado por Leandro @ outubro 14, 2004 02:43 AM

Muito bom o texto. Penso exatamente a mesma coisa. Frases banais, idéias banais, músicas banais. Tudo é sinônimo de dinheiro, desrespeito e prostituição sonora. Abraço!

Comentado por Rodrigo Giosa @ outubro 14, 2004 12:02 PM

Olá Enio,

infelizmente nao assiti a MTv porque to sem tv a cabo aqui em casa, e tambem nao faço aminima questão de ver. A uncia coisa que fiquei sabendo, foi por comentarios os vencedores e tals.

Concordo, e muito com o texto postado. Onde na verdade é um rebeldia contida sob grifes e styles. personalidades zero. Musica? pra que? ja tem pronta. é mais facil.

o que fiquei pasmo foi saber que teve banda que ganhou clipe como melhor video clipe da categoria, sendo que os outros eram bem melhores, mas que na verdade prevaleceu realmente a gravadora deles, que infelizmente nao era independente como a dos outros.

mas fica ssim entao. estou virando leitor assiduo do blog n roll.

[]'s

deco.

Comentado por deco salgado @ outubro 15, 2004 04:18 AM

"I have to be careful not to preach

I can't pretend that I can teach,

And yet I've lived your future out

By pounding stages like a clown.

And on the dance floor broken glass,

The bloody faces slowly pass,

The broken seats in empty rows,

It all belongs to me you know."

Do Quadrophenia. Faz todo sentido, no?

Comentado por Anna C. (Norwich resident) @ outubro 15, 2004 06:09 AM

Eu discordei desse testo... ele tá derrespeitando totalmente o rock "mijem no túmulo de Jim Morrison" , vcs acham legal isso q ele disse... concordam com o cara só pq ele falou mal da mtv, q vcs todos fazem questão odiar, já q já virou modinha mesmo odiar a mtv... aahh, naum fode naum!

Comentado por Karina @ outubro 16, 2004 03:16 AM

Já vi que esse post vai virar santuário.

Comentado por Enio @ outubro 16, 2004 03:40 AM

Todo mundo adora falar mal....

Mas todo mundo assisti... _|_ pra vcs!

Comentado por Ricardo @ outubro 20, 2004 04:05 PM

Cara, muito questionavel essa matéria. Quem tem que tomar vergonha é o cara que escreveu. Manda urinar no tumulo do Jim Morrisson, Fala que Elvis morreu gordo, e dai? Tem todo esse lado decadente e esculachado mesmo no rock, faz parte tambêm. Nos anos 80 as bandas brasileiras faziam play back e aconteciam as coisas mais engraçadas, hoje os caras tem história para contar...Pete Townsend quebrava as guitarras e éra muito legal, yeah. Sera que o Caetano iria reclamar dos caquinhos da guitarra atrapalhando sua dancinha sutil?

Acho que o Caetano tem o direito de ter um bom som e ele merece reconhecimente, sempre adorei sua musica mas essa matéria misturou as coisas.

Desculpa a intromissão aqui nesse blog mas não conssegui ficar quieto sem dar minha opinião.

Abraços.

Comentado por Felipe S. @ outubro 24, 2004 05:51 PM

Tem toda essa babação na MTV mesmo, mas o proprio Caetano sempre defendeu o comercialismo e o Rock ,a musica brega a falta de frescura, e quebrou o excesso de pureza que ele dizia haver na Bossa Nova. Não foi isso o Tropicalismo e todo o discursso que ele sempre defendeu?

Esse jornalista ai, poderia defender a musica classica com esse discurso porêm provavelmente ele não teria cultura para isso. Mas nem a musica classica ele poderia defender com esse discurcinho, da muito bem pra gostar de Bach e de Pete Townsend ao mesmo tempo, e do Caetano tambêm.

Comentado por Felipe S. @ outubro 24, 2004 06:02 PM

Devo me desculpar aqui, confesso que só tinha lido metade da matéria e agora qui li inteira me dei conta que minha critica não diz respeito ao que está escrito ai. Agora vi bem mais razão no que ele disse porêm, na minha visão, toda rebeldia dos "60's" acabaram dando neste esvaziamento. E acho a palavra esvaziamento muito boa pois é isso que sinto nos jovens de hoje, tenho 29 anos e não falo apenas da MTV, falo de meus amigos, da grande maioria deles e de meus conhecidos, jovens. Mas tudo é consequencia, a rebeldia em fim se esvai...Jim Morrissom morreu com 27 anos, seu organismo não suportou. A gerações são organismos...

Comentado por Felipe S. @ outubro 25, 2004 08:44 PM

Tudo certo, Felip. A tribuna aqui sempre foi livre.

For good and for bad.

Comentado por Enio @ outubro 26, 2004 11:17 AM

eu achei seu comentário muito importante,ultimamente o povo não liga para música de verdade e nem briga pelo seus direitos aonde que isso vai parar

Comentado por glaucia aparecida pereira @ janeiro 18, 2007 10:53 AM

hahahahahahaha.é.... muito engraçado isso tudo. gostei. Só falta vc dizer k quem ta certo é o poeta, escrito e musico "bush" George W. Bush. Sim... esse mesmo. acertei meu caro? Ou vai me dizer que pra vc ele nao é poeta escritor e muito menos cantor? pois para mim cada vez que ele fala eu ouço um lindo som num papel metralhado com letras de balas ja manchadas. VC e o BUSH até que faziam um belo par. O bush eu ainda arrancava o coraçao dele com as maos e comia ainda a bater,o seu coraçao nao sei, acho que o deitava aos porcos. Até que é uma boa maneira de vc aparecer, pena que seja com comentarios um tanto quanto pesados, ora,ora, comentar sobre os que ja partiram é facil de mais.

Comentado por Aldrabao Igual Voce. @ abril 17, 2007 04:55 PM
Participe!









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