Segue um post que eu publiquei em 12 de março de 2001, na telescÓpica. Resolvi trazer ele aqui por dois motivos: primeiro porque ganhei o DVD do histórico concerto do Central Park,da dupla Simon & Garfunkel, de presente do meu amigo Sérgio Miranda e porque um cara, o Kleiton Camargo, encontrou o tal post nos arquivos e comentou. Para encher muita lingüíça aqui, vamos nessa que o post é enorme e agora vem ilustrado!
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Eu sou completamente apaixonado por algumas músicas. Poderia citar dezenas delas. Normalmente eu procuro as originais e suas diversas versões.
Uma delas em especial é Scarborough Fair, na versão clássica de Paul Simon e Art Garfunkel. Ela apareceu primeiro no disco da dupla chamado Parsley, Sage, Rosemary and Thyme, mas ficou mundialmente conhecida na trilha do maravilhoso filme de Mike Nichols, A Primeira Noite de Um Homem - The Graduate, estrelado por Dustin Hoffman e Anne Bancroft. Para se ter uma idéia de como eu gosto desse filme, no primeiro fim-de-semana que eu vi, acabei assistindo 5 vezes. E não sou só eu não. Ele foi referência para mais de 30 outros filmes. Mas voltemos a música.

Registro do encontro de Mrs Robison com o jovem Dustin Hoffman - com autógrafo e tudo
Scarborough Fair é uma canção folk medieval inglesa. Seu nome se refere à uma feira tradicional que ocorre em meados de agosto na pacata cidade de Scarborough, localizada em North Yorkshire no noroeste da Inglaterra. A cidade foi fundada há mais de mil anos, por Skartha, um viking que se estabeleceu na região e batizada com o nome de Skarthaborg.

A tradicional feira do porto em Scarbourough
De autor desconhecido, a canção surgiu numa época em que o porto de Scarborough era uma importante via de comércio inglesa. Ela era cantada pelos bardos que iam de cidade em cidade, mudando a letra e o arranjo. Por isso, hoje existem dezenas de versões de letras. A versão mais fiel ao original compreende mais versos do que os que são cantados normalmente. Paul Simon aprendeu a canção com Martin Carthy, um famoso cantor folk inglês. Apesar de usar um arranjo parecido, Paul Simon nunca mencionou Carthy nos créditos em seus álbuns.
Aqui a letra mais fiel:
Are you going to Scarborough Fair?
Parsley, sage, rosemary and thyme
Remember me to one who lives there
For once she was a true love of mine
Have her make me a cambric shirt
Parsley, sage, rosemary and thyme
Without no seam nor fine needle work
And then she'll be a true love of mine
Tell her to weave it in a sycamore wood lane
Parsley, sage, rosemary and thyme
And gather it all with a basket of flowers
And then she'll be a true love of mine
Have her wash it in yonder dry well
Parsley, sage, rosemary and thyme
where water ne'er sprung nor drop of rain fell
And then she'll be a true love of mine
Have her find me an acre of land
Parsley, sage, rosemary and thyme
Between the sea foam and over the sand
And then she'll be a true love of mine
Plow the land with the horn of a lamb
Parsley, sage, rosemary and thyme
Then sow some seeds from north of the dam
And then she'll be a true love of mine
Tell her to reap it with a sickle of leather
Parsley, sage, rosemary and thyme
And gather it all in a bunch of heather
And then she'll be a true love of mine
If she tells me she can't, I'll reply
Parsley, sage, rosemary and thyme
Let me know that at least she will try
And then she'll be a true love of mine
Love imposes impossible tasks
Parsley, sage, rosemary and thyme
Though not more than any heart asks
And I must know she's a true love of mine
Dear, when thou has finished thy task
Parsley, sage, rosemary and thyme
Come to me, my hand for to ask
For thou then art a true love of mine
Como os trovadores medievais, a letra fala do amor de um homem que foi abandonado por uma mulher. O típico amor medieval. O cantor fala de tarefas impossíveis para tentar explicá-la que o amor, às vezes, requer que se façam coisas que aparentemente são impossíveis para ser verdadeiro.

Parsley, Sage, Rosemary & Thyme
Para os curiosos, parsley, sage, rosemary e thyme são ervas que tinham grande significado no mundo medieval. Na música, elas simbolizam as virtudes que o bardo espera do seu amor verdadeiro e de si mesmo, para que tornem possível a volta dela para seus braços.
A saber:
Parsley (salsa): é uma erva muito usada contra má-digestão. Para os medievais, ela levava embora a amargura e trazia a paz de espírito.
Sage (sálvia): simboliza a força por mil anos.
Rosemary (alecrim): representa a fidelidade e o amor. Os amantes gregos davam ramos de rosemary para suas amadas. Até hoje, em diversos cantos da Europa, as noivas costumam usar ramos de rosemary em seu cabelo. Ela também está ligada a sensibilidade e a prudência e está diretamente associada ao amor feminino, porque é muito forte e resistente, embora cresça lentamente.
Thyme (tomilho): simboliza a coragem. Na época em que a música foi escrita, os cavaleiros medievais usava imagens de thyme nos seus escudos, bordados por suas esposas como símbolo de sua coragem.
A citação das mesmas na canção é bem clara. O amante decepcionado deseja que seu verdadeiro amor acabe suavemente com a amargura que existe entre os amantes, tenha força ser firme no momento em que eles estão separados, fiel durante o período de solidão e, paradoxialmente, coragem para ela cumprir as tarefas impossíveis e voltar para ele quando puder.
Blogado por Jean Boechat @ dezembro 13, 2003 11:58 PM | TrackBackJampa, o pouco que sei da história reza que o Paul teria sido acusado pelo Carthy de haver editado a música como sendo de autoria da dupla Simon & Garfunkel. O Carthy não reclamou, acho, o nome dele no álbum, mas frisou que, sendo uma canção de domínio popular -- por ser tão antiga --, era assim que ela deveria constar no álbum. Por conta desse imbroglio o Carthy e o Paul ficaram sem se falar por mais de trinta anos -- e foram se reconciliar a pedido do Neil Wayne, que não só promoveu o encontro como sugeriu a música que selaria as pazes. Adivinha qual...?
Bom, dei uma fuçada e descobri esse link aí onde você pode ouvir a tal gravação, no gogó da insólita dupla Simon & Carthy.
www.free-reed.co.uk/carthy/simon/sf.ram
Comentado por Nelson da Praia @ dezembro 15, 2003 08:43 AMO que importa também é que o Wes Montgomery gravaou essa música no disco "Road Songs" e é sensacional.
Comentado por Paco Garcia @ dezembro 15, 2003 10:20 AMPaco: uma cacetada de gente gravou. Eu acho que tenho umas 40 versões diferentes. Ou era algo perto disso.
Nelsão: boa. Mandou bem na complementação histórica. =^)
Comentado por Jean Boechat @ dezembro 15, 2003 10:29 AMNão seria a primeira vez que o Paul Simon pega emprestada uma canção do folklore inglês.
April Come She Will é outro bom exemplo.
Paul foi exposto a todas estas canções folkloricas em 1965 quando ele passou um ano morando e trabalhando em Wiltshire, berço de muitas tradições rurais da Inglaterra.
Comentado por Ritchie @ dezembro 15, 2003 11:03 AM"April come she will,
May she will stay,
June she'll change her tune,
July she will fly,
August die she must".
Comentado por Ritchie @ dezembro 15, 2003 11:14 AMoutra das minhas prediletas. Aliás, acho que é do mesmo disco. pelo menos tá na trilha do filme também.
Comentado por Jean Boechat @ dezembro 15, 2003 11:17 AMMuito boa a história de "Scarborough Fair" e do Martin Carthy, Jean. "April Come She Will" está no segundo disco da dupla S&G, "Sounds of Silence" (que é o que tem, no singular, "The Sound of Silence"). A trilha sonora de "The Graduate" é, basicamente, composta de coisas que já haviam saído nos dois discos anteriores deles -esse que eu citei e "Parsley, Sage, Rosemary and Thyme". A única música que Paul Simon compôs para o filme, salvo engano meu, é justamente "Mrs. Robinson". Abraços.
Comentado por Ruy @ dezembro 15, 2003 12:58 PME diga-se de passagem, a trilha do filme é muito boa. a parte instrumental, que não tem nada a ver com simon & garfunkel. tem uma outra curiosidade a respeito dela.. parece que esse foi o primeiro filme a ter canções pops e vender discos relacionado ao filme. esse tipo de coisa não rolava antes.
Comentado por Jean Boechat @ dezembro 15, 2003 01:26 PMSim, Jean, é isso mesmo. A parte instrumental da trilha foi composta pelo pianista de jazz Dave Grusin.
Comentado por Ruy @ dezembro 15, 2003 02:52 PMO Scarborough Port Fair (Parque de diversões) da foto não tem quase nada a ver com o Scarborough Fair (Feira de comercio) da canção - exceto pelo nome.
A feira original, que foi inaugurada há mais de mil anos, era o evento de intercâmbio comercial mais conhecido da Inglaterra na idade média.
Comentado por Ritchie @ dezembro 15, 2003 03:23 PMinfelizmente os nossos fotógrafos do blog'n'roll não puderam cobrir esse evento original =^D
Comentado por Jean Boechat @ dezembro 15, 2003 03:28 PMhaha... boa jampa.
Eu estava apenas querendo chamar atenção para o duplo sentido da palavra "Fair" em inglês:
Hoje em dia a palavra passou a significar "Parque de diversões" e não "Feira", como antigamente.
Comentado por Ritchie @ dezembro 15, 2003 03:38 PMé verdade. =^)
e eu brinquei com o fato de cobrir o evento na idade média. mas é isso mesmo... Scarborough era um ponto de importante comércio naquela época. Eu achava que esse sentido de 'parque' da palavra 'fair' era uma corruptela lingüística americana...
Comentado por Jean Boechat @ dezembro 15, 2003 03:48 PMNão é uma corruptela lingüistica. É a concepção da palavra "Fair" que mudou.
As feiras de antigamente teriam malabaristas e diversões também mas na medida em que as feiras iam perdendo sua importância comercial, acabou sobrando apenas a parte de diversão popular.
Comentado por Ritchie @ dezembro 15, 2003 03:59 PMPuxa, que bacana, eu também amo A Primeira Noite de Um Homem, é meu filme favorito... é até engraçado, porque a maioria das pessoas que eu conheço não vê nada de espetacular nesse filme, mas na minha opinião, tudo nele combina a perfeição.
Comentado por Jude @ abril 25, 2004 02:48 PMAchei super legal a idéia de mostrar o porquê dessa música, da qual também sou super fã. Acho que os arranjos de Simon ficaram bem situados por se tratar de uma canção de origem medieval. Nada melhor do que uma boa combinação!
Comentado por Ligia Oliveira @ agosto 30, 2004 05:57 PMNossa, eu estava justamente procurando sobre "Scarborough fair" PQ ela me dá uma sensação estranha d antigamente, e encontrei exatamente o q pocurava, e era o q eu imaginava mesmo, essa coisa d Inglaterra medieval..
Comentado por Anagnostopoulou E vangelia @ setembro 29, 2004 11:40 AMOlá! Tava navegando pelo google em busca de informação sobre a música scarbourough fair e achei seu blog. Vou postar esse texto, junto com um videoclipe da Sarah Brightman e citar seu blog como fonte. Qualquer problema sobre isso, me comunique!
Comentado por Jonatas @ março 14, 2006 06:25 PMSou apaixonada por esta música e fiquei muito feliz em ter encontrado tanta informação aqui no seu blog. Sempre me identifiquei muito com a música medieval, e agora entendo a razão desta música ser tão especial pra mim. Parabéns pelo material postado.
Comentado por Marcia @ outubro 12, 2006 12:08 AMtenho varios cds de somon & garfunkel, eu queria ter mais informações sobre a musica do kansas(dust in the wind), musica regravada por simon & garfunkel, não encontro o cd que consta essa musica, obrigado,
obs: as informações que li acima foi de grande importancia para conhecer melhoa a dupla.
Comentado por everas @ agosto 29, 2007 04:01 PMMúsicas como Scarbourough fair não têm data de validade. É o amor romântico se atrevendo a tocar pessoas na Modernidade.
Comentado por Wesley @ novembro 30, 2007 12:54 PMOi, eu também estava procurando coisas sobre Scaraborough Fair, para levar para minha turma de 8 série. Aprendi bastante aqui. Realmente, nosso imaginário medieval é bem alimentado pelos filmes estrangeiros e outros meios.
Mas poderíamos voltar os olhos para nosso espaço e ver muita herança daqueles tempos no meio de nós...Elomar por exemplo trabalha com muito conhecimento sobre o tema considerando seu reflexo na nossa cultura. E a literatura de Cordel é algo como uma máquina do tempo no que se refere ao assunto.